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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Biutiful


Escancarar os dramas urbanos no cinema está na moda. E qualquer semelhança em filmes provenientes de vários países não terão sido mera coincidência, uma vez que, seja na Europa ou na Amé­rica do Sul, os dramas são pare­cidos. Basta lem­brar dos conflitos com a polícia no brasileiro “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2”, de José Padilha, ou o recente “Abutres”, do argentino Pablo Trapero.

Agora, é a vez de a Espanha mostrar o drama que acontece em Barcelona, aos olhos do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, também autor do roteiro, no filme “Biutiful”, que estreia nesta sexta-feira, dia 21 de janeiro.

Conhecido por ter dirigido filmes escritos por Guillermo Arriaga, que ficou conhecido como a trilogia do caos, formada por “Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel”.

A trilogia tem filmes formados por sequências não-lineares, mas “Biutiful” só tem um detalhe: começa com a cena final e dá a volta para retornar ao ponto de onde parou. Na trama, Uxbal (Javier Bardem) é pai de duas crianças e detém a guarda dos filhos porque a mãe é bipolar, trai o marido e vive bêbada. Embora seja tradicional no modo como cuida da família, seu trabalho não é, digamos, muito ortodoxo. Isso porque ele é espiritualmente sensitivo e ganha dinheiro indo a velórios para ouvir o que os mortos dizem. Outra ques­tão é que ele vive do dinheiro que ganha do mercado paralelo, informal: suborna a polícia para proteger os camelôs africanos que comercializam produtos chineses e piratas, como relógios, bolsas, filmes.

Em meio a esse caos urbano do qual é apenas um sobrevivente, Uxbal quer também se reconciliar no amor, cuidar dos filhos, mas recebe o prazo de dois meses para combater o câncer de próstata que deu metástase e se espalhou para os ossos e para o fígado.

Com a câmera muitas vezes na mão para mostrar o nervosismo e a pobreza nas ruas, Iñárritu também abusa dos closes, principalmente quando mostra a vida familiar em casa, o cochicho do pai e da filha vendo o anel. Há cenas chocantes, como a do porão, mas também é emocionante ver como o pai trata os filhos; ou irritante, quando a mãe larga o filho menor em casa, de castigo, e segue para os Pirineus, na fronteira da Espanha com a França, para ver a neve. A sequência na qual os camelôs saem correndo assim que veem a polícia lembra o centro de São Paulo, tal como quando os camelô veem a polícia se aproximando e gritam: “Olha o rapa!”

Javier Bardem se entrega ao personagem e convence o espectador de seu sofrimento, de sua angústia e do seu amor aos filhos. “Biutiful” trata, sobretudo, da paternidade, mas também do medo do filho perder o pai, tal como diz a garota, em uma passagem, enquanto Uxbal começa a fazer “contagem regressiva” e a filha diz: “Deve ser horrível não ter pai”, justamente quando ele diz que o seu morreu no México, país para onde fugiu quando Franco começou a per­seguir os espanhóis.


Ah, e sobre o nome do filme ser escrito Biutiful, com I, e não com E, como é correto, aguarde para conferir na fita: a explicação é mais simples que parece...


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Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo filme dirigido pelos irmãos Cohen, “Onde os Fracos Não Têm Vez”, Bardem também fez a comédia de Woody Allen, “Vicky Cristina Barcelona”. Durante o Festival de Cannes, no ano passado, evento no qual a fita fez a sua estreia, Bardem ganhou o prêmio de Melhor Ator. Mas o filme não levou o Globo de Ouro. Para o Oscar, o longa foi pré-selecionado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos

E Woody Allen voltou para a Europa. Embora o cineasta nova-iorquino goste de filmar em sua cidade Natal (haja vista sua filmografia, que tem títulos como "Manhattan", "Annie Hall", "Crimes e Pecados"), mais uma ele vez escreve um longa-metragem com Londres como cenário. “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos” (“You Will Meet a Tall Dark Stranger”) é a estreia desta sexta-feira, dia 26 de novembro, nos cinemas.

Sem conseguir financiamento para suas produções nos Estados Unidos (já que a maioria delas não rende muita bilheteria, além de ele há muito tempo ser melhor compreendido pelo público europeu), Allen filmou, de 2005 a 2007, três longas na Inglaterra: "Ponto Final – Match Point", "Scoop – O Grande Furo" e "O Sonho de Cassandra". Ainda na Europa, em 2008, foi a vez de a Espanha ser o cenário para o seu "Vicky Cristina Barcelona". Somente um ano depois, 2009 portanto, ele retornou para Manhattan e fez "Tudo Pode Dar Certo". Agora, Woody Allen volta para a Europa em mais um longa-metragem cujo roteiro e direção são de sua autoria.

O longa-metragem conta a história de Alfie (Anthony Hopkins) e Helena (Gemma Jo­nes), pais da jovem Sally (Naomi Watts), que trabalha em uma galeria de arte e é casada com o escritor Roy (Josh Brolin). No entanto, é a partir do momento em que Alfie deixa a esposa para viver com uma "jovem liberal" (Lucy Punch) é que começam os dramas da senhora, que, ao invés de procurar um terapeuta para curar a depressão, busca ajuda em uma vidente que lê cartas e jura que conseguirá prever o que acontecerá na sua vida.

Mas Helena não é a única infeliz na trama. Isso porque  Sally desenvolve uma paixão não correspondida pelo chefe (Antonio Banderas), enquanto seu marido continua esperando que seu livro seja publicado. E, a cada dia que passa, Helena continua procurando aquele que a vidente charlatã lhe prometera: o homem dos seus sonhos.

Mais uma vez Woody Allen abusa dos diálogos para dar o recado de seus personagens, que, quase sempre, são seus alter ego. E é utilizando o bom humor e a inteligência que ele provoca o espectador e o faz compreender os dramas que coloca na tela, como a dificuldade de se encontrar o par perfeito. 

Seus filmes trazem sempre ótimas reflexões, principalmente porque ele traz assuntos do cotidiano para a sala do cinema. Sempre com orientação urbana e reuniões familiares, Woody Allen discute, mais uma vez, a passagem do tempo, como se a idade começasse a se tornar um problema. O mesmo, aliás, pode ser visto em "Tudo Pode Dar Certo", quando o protagonista se apaixona por uma moça 30 anos mais nova (qualquer semelhança com a vida real, aliás, não terá sido mera coincidência...). Nesta fita, aliás, ele faz com que o personagem de Hopkins tome Viagra para que a paixão não morra... Tempos modernos esses no qual Allen também se vê.

Sem glamourização dos filmes hollywoodianos, Woody Allen consegue reunir astros e estrelas em seus longas. As interpretações de Gemma Jones e Anthony Hopkins, por exemplo, são impagáveis. Taí, pois, a diferença de suas produções: ele consegue extrair o melhor dos atores, mesmo que a conta no banco não esteja recheada.

Assim como seus outros filmes, "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos" não é uma grande produção. No entanto, desde os anos 1970 Allen entrega um filme por ano (ainda que demore um pouco para chegar no Brasil). Cinéfilo que se preze aguarda cada um com o mesmo entusiasmo. Afinal de contas, seja ele um drama ou uma comédia, com certeza será inteligente e, sobretudo, acima da média do que se vê por aí, seja nos Estados Unidos, seja na Europa.

Por falar em nova produção europeia, outro longa está em fase de finalização: "Midnight em Paris", filmado na capital francesa e com Carla Bruni, Marion Cotillard, Adrian Brodi, Owen Wilson no elenco. A previsão de lançamento na Europa é setembro de 2011. Por aqui, porém, não há data definida...

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quinta-feira, 8 de abril de 2010

A Riviera Não É Aqui

Demorou um pouco para che­­­gar aqui. Filmada em 2007 e exibido na França (e na Europa, de maneira geral) em 2008 e 2009, estreia nesta sexta-feira, 12 de abril, a comédia “A Ri­viera Não É Aqui” (“Bienvenue Chez les Ch'tis”). A estreia, no entanto, é tímida, pois serão quatro praças e, em São Paulo, as exi­bições serão ape­nas no circuito digital, ou se­ja, nos cinemas Arteplex Frei Ca­ne­ca, Es­pa­ço Unibanco Pom­péia (Shop­ping Bourbon), Cinema da Vila (rua Fradique Cou­tinho) e Cine Bombril (Cojunto Nacio­nal).

Se o Brasil não trata esta produção com entusiasmo, saiba que os franceses (por motivos óbvios, é claro) prestigiaram o filme so­bre um gerente dos Correios que é transferido para o norte do país. Isso porque a fita, que teve o or­ça­mento de 11 mi­lhões de euros, arrecadou, no fi­nal de semana de abertura, mais de 20 milhões de euros (segundo o IMDB – In­ter­net Movie Data­base). De acordo com o material de divulgação pa­ra a imprensa, o filme já rendeu na bi­lheteria mais de 180 milhões de euros naquele país e continua contabilizando. Esse foi, portanto, o filme francês de maior su­cesso de bilheteria. Talvez seja o equivalente ao nosso “Se Eu Fosse Você 2” que, embora não seja lá um gran­de filme, agradou ao pú­blico e rendeu na bilheteria.

O que mais se deve a este su­cesso é que o longa-metragem aborda as diferenças existentes den­tro do mesmo país (França), as questões culturais e, sobretudo, linguística. E em um território imenso como é a França, não po­deria ser diferente. Vide o caso do Brasil e as diferenças existentes entre as regiões Norte, Sul, Su­­deste, Centro-Oeste, Nordes­te.

Morador de Salon-de-Pro­ven­­­ce, uma cidade localizada no sul da França, Philippe Abrams (Kad Merad) é gerente dos Correios (va­le lembrar que “La Poste” também faz as ve­zes de banco), mas luta para ser transferido para a Riviera Fran­cesa, local banhado pelo mar Medi­terrâneo e considerado um dos mais belos do mundo. No entanto, sua esposa, Julie (Zoé Félix), vive em de­pressão e ele acredita que a mudança fará bem a ela e ao seu casamento. No entanto, ele mente em sua carta de transferência e coloca tudo a perder. Co­mo punição, é enviado para Ber­gues, cidade localizada ao norte da Fran­ça, em Nord-Pas-de-Ca­lais. Por conta do clima (e da fa­ma), ninguém que mora ao sul quer viver lá. A partir de então, sua vida começa a virar um inferno, pois sua esposa não pensa em ir junto.

Além do clima, existe o dialeto, o “picardo”, difícil de se en­tender e que será um dos motivos da graça. O nome original do fil­me, “Bienvenue Chez les Ch'tis”, tem a ver com a maneira como esse dialeto é conhecido lá (ch'tis).

A comédia “A Riviera Não É Aqui” é dirigida e escrita por Danny Boon, que também atua no longa-metragem. Ele é An­toine Bailleul, o carteiro que vai recepcionar o novo gerente, e in­cluí-lo no ambiente familiar. O roteiro, aliás, é bastante pessoal, uma vez que Boon é nativo da­quela região e sempre achou que as pessoas olham o local com preconceito e desdém por, principalmente, não conhecer o am­biente. O filme, então, é dedicado a sua mãe.

A câmera de Danny Boon faz um travelling, no início, pelas pelas paisagens do mediterrâneo e a abertura faz uma brincadeira pelo mapa: bem divertido.

Não bastassem as boas atuações dos atores (Kad Merad está impagável!), o público ri principalmente por conta dos trocadilhos do idioma, pelo trabalho que fazem e “enchem a cara” a convite dos moradores (principalmente para se aquecer do frio).

“A Riviera Não É Aqui” é um longa que apresenta uma evolução bem pontuada dos personagens, é humano, faz rir, mas sem ser uma comédia pastelão. Além de le­ve, sua maior virtude, po­rém, é não ser pretensioso, nem arrogante. E por isso o fil­me se torna belo e imperdível.

Em tempo: não saia do cinema antes dos créditos finais. Os erros de gravação são bem divertidos!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Educação

Nick Hornby é um apaixonado por música, literatura e, vá lá, cinema. Entre outros, é autor do romance "Alta Fidelidade", cujo livro ganhou as telas e fez muito sucesso com o protagonista vivido por John Cusak, viciado em "top 5", ou seja, em tudo o que fala ou pensa, inclui uma lista com cinco itens. Desta vez, ataca de roteirista. A partir do texto autobiográfico da jornalista Lynn Barber, publicado na revista literária "Granta", sobre seu primeiro namorado, Hornby escreveu o roteiro de "Educação" ("An Education"), longa-metragem que estreia após receber três indicações ao Oscar 2010 (melhor filme, atriz, roteiro adaptado).

Na Inglaterra dos anos 1960, a adolescente Jenny (Carey Mulligan) vive sufocada com os estudos e com a pressão do pai autoritário (Alfred Molina), que a obriga a estudar latim para ingressar em Oxford, embora ela goste mesmo de francês e queira ir a Paris ver filmes, ler livros, ouvir os cantores franceses, fumar seus cigarros, vestir roupas pretas, uma vez que, do outro lado do Canal da Mancha, o mundo lhe parece mais livre que na imensa ilha que habita. Para ela, o mundo perfeito tem nome: Paris.

O marasmo começa a mudar quando, ao sair da aula de violoncelo, ela conhece David (Peter Sarsgaard), um bon vivant mais velho que ela e faz "negócios" com obras de arte. Como entende de música clássica (e pode levá-la a concertos e a frequentar os mesmos locais da nata londrina), ela aprende a apreciar restaurantes, deixa de lado os estudos e, com as amigas da escola, compartilha de suas experiências (inclusive o sexo, que, segundo ela, "Todas essas poesias, e todas aquelas canções, sobre algo que leva tão pouco tempo?).

Nesta transição, portanto, ela vai aprender que a tal educação não está apenas nos livros, embora a escola não possa ser menosprezada, pois a professora e a diretora têm algo a ensinar. E é essa vida cheia de ilusões que ela quer.

Com direção da dinamarquesa Lone Scherfig, "Educação" discute os problemas da vida no Reino Unido da época, uma vez que tinha ficado para trás, se comparado aos Estados Unidos e à França e cuja população preza pela "liberdade, igualdade e fraternidade". O espectador vai se confrontar também com as atitudes do pai que, ao mesmo tempo que quer mandar, é medroso e não se sente confortável em ir para a França por não ter, por exemplo, o dinheiro daquele país, uma vez que naquele período pós-Segunda Guerra Mundial, tratava-se de um transtorno o câmbio de moedas.

Como foi inspirado no primeiro namorado de Lynn Barber, a fita retrata o que compõe o primeiro amor: apresentar à família, conhecer os amigos, apreciar os locais e as coisas pela primeira vez, ainda que o rapaz já o tenha feito antes. Para ela, desfrutar dessas maravilhas tem os lados bom e o ruim. E isso o filme também mostra.

O filme traz figurino e o retrato de uma Londres fria e cinzenta dos anos 1960 e trilha sonora (bem escolhida, aliás!) para o espectador apreciar e sintonizar os costumes, as pessoas, os amores. "Educação" reflete a juventude de hoje, ainda que não sob as mesmas circunstâncias e sob os mesmos aspectos. No entanto, é possível, sim, se identificar com a personagem, ainda que, aparentemente, os pais não exerçam hoje em dia tanta influência nas escolhas dos filhos como há 40 anos.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Abraços Partidos

Diretor espanhol Pedro Almodóvar nunca faz um filme para ficar indiferente sobre algum assunto. Basta dar uma rápida olhada em sua filmografia e estão lá as discussões sobre sexualidade, traição, viciados em drogas, as artes plásticas, o teatro, o cinema, a questão feminista, o mundo gay e por aí vai, lembrando da transgressão (oposição radical ao franquismo). E nesta lista poderiam ser vistos filmes como "Tudo Sobre Minha Mãe", "Ata-me", "Carne Trêmula", "Má Educação" e o mais recente "Volver".

Mais uma vez ele faz um filme dentro do filme. Em "Abraços Partidos" ("Los Abrazos Rotos"), estreia desta sexta-feira, 4 de novembro, o diretor reúne uma de suas atrizes favoritas, Penélope Cruz, em seu quarto trabalho em conjunto. Aqui ela é Lena, uma aspirante a atriz que começa a fazer o filme "Garotas e Malas" (em uma declarada inspiração em "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos") encomendado por seu marido, Ernesto Martel (José Luis Gómez), ao cineasta Mateo (Lluís Homar). No entanto, os dois se apaixonam e fogem para uma cidade praiana.

Nos primeiros 15 minutos da trama, Almodóvar já mostra a que veio: há cena de sexo casual e, de forma não linear, começa a contar como o cineasta, que agora se chama Harry Caine, ficou cego e por que começa a se lembrar do passado assim que fica sabendo da morte de Martel.
No momento, porém, Caine é autor de roteiros de cinema e conta com a ajuda de Judit (Blanca Portillo) e de seu filho Diego (Tamar Novas) para vender e escrever seus textos. E mais um filho tem influência sobre a trama. Isso porque Martel pede a seu filho (Rubén Ochandiano) que fique de olho na esposa. Ao mesmo tempo das filmagens, o rapaz grava o making of. E esse vídeo é um dos momentos do clímax da película de Almodóvar.

A fita é a que mais tem metalinguagem em sua filmografia, uma vez que o tempo todo vai contando como costumava filmar com Lena e as filmagens em si, além de toda a montagem efetuada anos depois. Como seu personagem diz, "as películas precisam ser terminadas, ainda que às cegas".

Usando cores fortes, como é sua característica, Almodóvar escolhe para filmar principalmente dentro da casa de Mateo e da casa de Lena. Entre as idas e vindas do roteiro, o diretor abusa das metáforas e homenageia o cinema quando faz a cena da escada (tal como fez Henry Hathaway em "Beijo da Morte", por exemplo), quando Lena se maquia e fica parecida com as musas Marilyn Monroe e com Audrey Hepburn. Sem contar com a cena do filme "Viagem à Itália", de Rossellini, que passa na televisão do casal.

"Abraços Partidos" tem bom humor, mas é um drama familiar, cheio de traição, ganância, poder e é um típico filme noir, uma vez que reúne o trio de amantes, dos quais um deles é poderoso, violento e inescrupuloso, além da cena da escada, tragédia etc. Feito por um dos diretores mais consagrados do cinema mundial, o longa-metragem vale a pena ser visto e apreciado. E com certeza você não sairá indiferente do cinema, pois Pedro Almodóvar é perturbador o bastante para deixar qualquer espectador intacto após assistir a um filme seu.

Assista ao trailer.


quinta-feira, 5 de novembro de 2009

À Procura de Eric

"À Procura de Eric" ("Looking for Eric") foi o longa-metragem escolhido para abrir a 33a edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e estreia nesta sexta-feira, dia 6 de novembro.

A fita tem dois personagens com o nome Eric e, a princípio, o espectador pode se confundir sobre qual Eric se está à procura, já que um é um carteiro (Steve Evets), que leva uma vida sem graça em algum lugar da Inglaterra (tem-se essa certeza por conta da direção invertida, do sotaque acentuado) e o outro é seu ídolo, Eric Cantona, jogador de futebol francês, que ficou famoso por vestir a camisa do Manchester United e fazer jogadas sensacionais.

Porém, à medida que o filme avança, é possível compreender o que teremos pela frente: divorciado do primeiro casamento e ainda apaixonado pela ex-esposa Lily (Stephanie Bishop), Eric atualmente vive com dois adolescentes que dão um trabalhão danado. Além do emprego, Eric ocupa seu tempo se dividindo entre os amigos também fãs de futebol e os encontra no pub, a entidade inglesa onde as pessoas vão tomar cerveja, discutir sobre a partida de futebol, falar dos problemas, ajudar os outros a resolvê-los.

Aos poucos, outros elementos vão aparecendo (inclusive as geniais jogadas de Cantona) e mostrando que Eric tem muitos problemas e é sua filha, fruto do relacionamento com Lily (de quem se separou há 30 anos), é que vai reaproximá-lo da amada. Mas não será fácil. Para tanto, Eric terá de enfrentar as suas angústias, os seus defeitos, seus erros do passado e encará-los para voltar a ser feliz.
Aliás, é Eric Cantona, vivido pelo próprio ex-jogador, que também é produtor do longa, quem vai ajudá-lo a sair do buraco (embora isso fique claro apenas ao espectador, visto que Eric fala com o pôster de Cantona pendurado em seu quarto).

E é com a pergunta: "Qual foi a última vez que você foi feliz" que ele vai se movimentar, fazer corridas para se sentir mais disposto, ajudar o enteado. Cheio de ditados populares e pronto para pronunciá-los a qualquer momento (como "Quem tem medo de jogar o dado, nunca vai tirar um seis"), Cantona é uma espécie de guru que motiva o outro Eric (e talvez o espectador) a sair da lama, a ir, de fato, em busca do seu verdadeiro eu.

Dirigida pelo inglês Ken Loach (o mesmo de "Ventos da Liberdade", que foi exibido na Mostra em 2006), a fita apresenta o apreço pelas pessoas, é composta por diálogos bem-construídos que emocionam e com um toque essencial que mistura o bom humor e a ironia capazes de tocar a plateia. Sua câmera intimista aproxima o espectador do drama de Eric, apresenta como os amigos vão ajudá-lo nos momentos difíceis, como ele vai cuidar da netinha etc.

Embora todos esses elementos contribuam para que "À Procura de Eric" seja um grande filme, é o "happy end" que não combina com as produções autorais de Loach. Ainda assim, um dos melhores ultimamente no cinema, e reúne lições sobre amizade, autoconhecimento, solidariedade.