quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2

Na semana passada, eu disse que tinha tentado comprar um ingresso para ver "Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro", mas não obtive sucesso. Acontece, que coloquei na cabeça que do final de semana seguinte, não passava. E não passou mesmo. Para não ser pega de surpresa, tratei de comprar os ingressos pela internet e em um cinema que tivesse lugar marcado. Dez minutos antes de a sessão começar, eu já ocupava a poltrona escolhida, pronta para ouvir "pede pra sair". Ok, não tem essa fala no filme e a sala que eu escolhi no Cinemark Market Place não era assim, digamos, "uma Brastemp", mas o pessoal se comportou direitinho para ver o filme que foi, até hoje, o mais visto do ano! E agora eu conto o que achei.

De cara, o longa-metragem dirigido por José Padilha já mostra a que veio. Tiroteio, perseguição e narrações em off de Nascimento (novamente vivido pelo ótimo Wagner Moura), que agora não é mais capitão do Bope, como era no filme anterior, mas sim coronel. É, ele, aliás, o alvo dos atiradores. Daí pra frente, ele mesmo vai contar ao espectador como foi parar lá e o que aconteceu no final desta história. É o momento de se acomodar na poltrona e se entregar às imagens da câmera de Lula Carvalho, novamente diretor de fotografia, e à montagem de Daniel Rezende. O roteiro é feito a quatro mãos: Padilha e Bráulio Mantovani (de "Cidade de Deus").

À frente do comando, Nascimento usa a estratégia para combater o tráfico das favelas, e os caveiras, entre eles o capitão Mathias (André Ramiro), sobem o morro dentro do Caveirão ou de helicóptero, também com o intuito de impedir, inclusive, que policiais militares corruptos negociem com os traficantes e recebam propina. É aí que conhecemos a origem das milícias.

Se "Tropa de Elite" se passava no final dos anos 1990, "Tropa 2" é contemporâneo, cobre o arco de 2006 a 2010 e cita, durante várias sequências, que trata-se de ano de eleição e, portanto, não será possível abrir uma CPI, por exemplo, pois é um procedimento considerado por muitos como eleitoreiro. (Em nota, Padilha informa que não pertence "a nenhum partido, grupo polí­tico, agremiação, sindicato ou lista de apoio a candidatos".)

Agora separado da mulher (Maria Ribeiro) e pai de Rafael (Pedro Van Held), Nascimento vive só e em guerra com Fraga (Irandhir Santos), professor de história e defensor dos direitos humanos e tenta negociação durante rebelião em Bangu I. Outro problema com Fraga é que ele se casou com sua ex-mulher e faz a cabeça do filho para ir contra o pai. No entanto, se aproveitando da rebelião e quando ganhou notoriedade mundial, Fraga se elege deputado e compra a briga com o Bope. Nascimento, afastado do Batalhão, passa a trabalhar como subsecretário de Inteligência. É quando ocupa o cargo que começa a entender que o problema com os traficantes e a polícia do Rio de Janeiro é muito maior e muito mais próximo da política que podia imaginar. A partir daí, percebe que é preciso ir contra o sistema se quiser, de fato, encontrar a solução.

Usando a câmera na mão, Padilha apresenta ao espectador imagens quase documentais da sujeira que é escondida embaixo do tapete quando o assunto é política. Com muitos tiros, perseguições e, vá lá, menos torturas que o filme anterior (as sequências que mostram "o saco" no primeiro são mais sufocantes que nesta produção), "Tropa de Elite 2" é violento, sim, mas nada que não seja tal como a nossa realidade.

Padilha mostra, mais uma vez, depois de "Ônibus 174" e "Tropa de Elite", que é, além de um brilhante e competente cineasta, um homem corajoso, e, ele próprio enfrenta o sistema, traduzindo em imagens de ficção (como avisa na abertura da fita) o que é a dura (e conhecida) realidade brasileira, mas que poucas pessoas têm coragem para expor, denunciar ou seja lá que nome tenha isso.

Por conta da pirataria do primeiro filme, desta vez a equipe decidiu não fazer cópia digital e os sete rolos de filme ficaram trancados em um cofre de banco. Hoje, já existe o filme para download, mas é daqueles gravados diretamente no cinema.

Segundo o Filme B, o longa-metragem já faturou R$ 40 milhões e mais de 4 milhões de pessoas assistiram ao filme até o segundo final de semana em cartaz. Os números fazem de "Tropa de Elite 2" a produção nacional mais vista do ano, à frente de "Nosso Lar" e "Chico Xavier". 

Além do ufanismo, sentimento que obriga todos a prestigiar o cinema nacional, "Tropa de Elite 2" é indicação obrigatória e deve estar no repertório não apenas dos cinéfilos, mas de cada cidadão brasileiro.

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4 comentários:

Érison Martins disse...

O que mais me chocou é que, por lidar com políticos há alguns anos, eu não fiquei tão chocado quanto deveria. Se é que me entende...
Ótima crítica!

Tatianna Babadobulos disse...

Pois é, este é o problema: as pessoas não se chocam mais com a bandidagem e acham "normal" o que acontece por aí. Por isso as coisas sempre terminam em pizza. Obrigada!

Francine Ribeiro disse...

Olá Tatiana, também gostei do filme, em todos os sentidos. Mas ele faz a gente ficar um tanto desacreditado de tudo... Sai do cinema com uma sensação de 'tá tudo perdido'. Mas é um filme muito bom e que me surpreendeu positivamente porque achei melhor que o primeiro.

Gostei do seu texto também.
abraço

Tatianna Babadobulos disse...

Oi Francine
Fico feliz que tenha gostado do filme e do meu texto. E até compartilho da sua opinião quando o assunto é acreditar em um mundo melhor. Sou uma otimista inveterada e, mesmo com essa bandidagem toda a que assistimos todos os dias no noticiário, eu acredito que o nosso dia vai chegar. Principalmente quando vemos pessoas corajosas como o José Padilha, que escancaram a verdade na tela grande e, surpreendentemente, faz um sucesso enorme porque toca o coração das pessoas e o brio de cada um, afinal não da pra ser palhaço o tempo todo. Assim como ele, eu também acho que quando as coisas são mostradas, um passo a frente foi dado em direção ao bem. Mas é preciso acreditar e unir forças, pois ninguém faz nada sozinho, e com desesperança, não se sai do lugar.