quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Mamma Mia!

O projeto de "Mamma Mia!" ("Mamma Mia!"), longa-metragem que estréia nesta sexta-feira, dia 12 de setembro nos cinemas, começou nos anos 1980, no teatro. O musical, produzido por Judy Craymer (que trabalhava com Benny Andersson e Björn Ulvaeus durante musical pós-ABBA, "Chess"), foi criado a partir de canções já existentes do grupo. A estréia aconteceu em 1999, em Londres, e, de cara, foi um sucesso. Portanto, pensar em fazer um filme foi o caminho natural, principalmente por conta da produtora Playtone, que pertence a Tom Hanks e Gary Goetzman. Até aí, nenhuma novidade, porque "O Fantasma da Ópera", "Billy Elliot", e muitos outros, também percorreram o mesmo caminho.

No cinema, porém, embora o gênero musical seja um tanto enfadonho para quem não costuma se entusiasmar, a locação escolhida foi a ilha grega Kalokairi, que é de encher os olhos! Outro destaque se dá pela escolha da atriz, Meryl Streep (de "O Diabo Veste Prada"), que canta e dança de maneira única - em uma determinada passagem, aliás, ela realiza um "salto de segunda", como é chamado em dança, que não fica devendo a nenhum bailarino.

Na abertura do filme há uma canção interpretada pela bela atriz Amanda Seyfried, que faz o papel de Sophie, e merchandising "gritando" nomes de lojas de Nova York. A menina, que completou 20 anos e está prestes a se casar, não conhece o pai e decide, após ler (cantar) o diário da mãe Donna (Meryl), enviar convites para três homens: Sam Carmichael (Pierce Brosnan), Bill Anderson (Stellan Skarsgård) e Harry Bright (Colin Firth). Daí em diante, é possível imaginar a confusão que os três vão armar quando se encontrarem e ao reencontrarem Donna.

A direção da fita ficou a cargo de Phyllida Lloyd, em sua primeira experiência no cinema, já que ela havia apenas dirigido para televisão. Os atores, em ação, parecem se divertir, e quando a personagem vivida por Meryl encontra suas amigas, as três parecem adolescentes revivendo os velhos tempos de colégio, embora em alguns momentos pareçam desengonçadas enquanto dançam.

Em filmes, normalmente, a trilha sonora é utilizada para enfatizar ou acompanhar alguma cena, por exemplo. Nos musicais, ela acaba tendo a função de substituir o diálogo. Em alguns momentos de "Mamma Mia!", no entanto, essa utilização funciona. Em outros, como quando Meryl Streep está conversando com Pierce Brosnan em um despenhadeiro, é chato e forçado. É quando os atores param e, do nada, começam a cantar. Os outros atores, é bom lembrar, também interpretam canções sozinhos e em grupo. Firth e seu sotaque britânico, por exemplo, canta "Our Last Summer".

Além da belíssima locação, são as músicas do ABBA que devem atrair o público que vai se divertir, gargalhar e, em uma cena ou outra, se emocionar. Em uma delas, há um fundo com música típica grega e, em outra canção, o elenco dança em roda, tal como os gregos costumam fazer em festas.

No momento em que as luzes da sala de exibição se acenderem, caro leitor, não se preocupe caso fique com vontade de ouvir as músicas do grupo novamente. Acontece. O CD da trilha sonora, aliás, é o que está na lista entre os mais vendidos no mundo todo.

Ensaio Sobre a Cegueira

"Ensaio Sobre a Cegueira", livro escrito pelo português José Saramago, traz uma história comovente e ao mesmo tempo incômoda, pois trata-se de uma epidemia de uma cegueira que atingiu uma cidade inteira. Ao decorrer dos dias, conforme as pessoas vão "pegando", é possível conhecer as reações humanas. Para o cinema, o diretor Fernando Meirelles aceitou a empreitada de filmar a história que, na versão original (em inglês, já que é a origem dos produtores), chama-se "Blindness".

No início, em uma movimentada metrópole, um homem (Yoshino Kimura) está dirigindo e, de repente, não consegue avançar o semáforo porque ficou cego, de uma cegueira branca, leitosa. Quando consegue chegar em casa, vai com a esposa ao médico, que afirma não ter nada. Daí em diante, muitas pessoas passam a não ver e seguem para um local determinado pelo governo, onde ficarão em quarentena.

E é a partir daí que começa a segunda parte da trama, ainda mais incômoda, com imagens densas que desafiam a dignidade do ser humano, quando os obriga, cegos, a viverem com outras pessoas também cegas, que nunca conheceram na vida. E eles sofrem com a falta de comida e de medicamento, andam nus pelos corredores (afinal, apenas o espectador e um personagem podem ver - a Mulher do Médico, vivida por Julianne Moore). Ainda assim, ela não conta aos demais (exceto ao marido, personagem de Mark Ruffalo), que pode enxergar. Assim como no livro, os personagens não têm nomes.

Com roteiro escrito pelo canadense Don McKellar, o longa-metragem mostra em detalhes o sofrimento das pessoas, situa o espectador no local onde eles ficam "internados", principalmente por conta da sujeira proveniente das fezes, da urina, além dos corpos daqueles que morrem que vão ficando pelo chão, e da violência dos estupros, em cenas fortes, mas que não chocam o espectador pois apenas induz. Essa seqüência, aliás, conforme disse Meirelles em entrevista, foi cortada após os "screening tests", mas poderá ser vista no DVD.

Com fotografia de César Charlone, o mesmo que acompanhou Meirelles em "Cidade de Deus", o espectador quase pode ver tal como o personagem, já que o excesso de branco e a falta de foco dão essa impressão. Como foi filmado em diversas cidades, o filme não conta ao espectador onde a narrativa se passa, mas as imagens possuem orientação urbana. No início, as imagens, que lembram videoclipe (uma característica de Meirelles que pode ser conferida tanto em "Cidade de Deus" como em "O Jardineiro Fiel"), mostram o caos no trânsito, o barulho nas ruas. No entanto, é possível identificar que as cenas externas são filmadas em São Paulo. É fácil reconhecer a Avenida Paulista, a Ponte Estaiada antes de ficar pronta, a Marginal do Pinheiros, mas ao mesmo tempo agride o espectador porque as placas dos carros são maquiadas e a viatura da "Police" possui chapa de três letras e quatro números (exatamente como as brasileiras).

Ao mesmo tempo em que os personagens são estranhos, pelo fato de estarem sendo testados, o espectador consegue eleger um para o qual torcer. E boas interpretações, aliás, não faltam. Nisso, há de se dar todo o mérito a Meirelles, que pecou na direção de arte (que mostra, por exemplo, televisores antigos e carros modernos), mas deu um banho em fotografia e direção de atores.

No elenco, também está Alice Braga, que trabalhou com Meirelles em "Cidade de Deus" e interpreta a Mulher dos Óculos Escuros. Um dos destaques, porém, é o personagem Rei da Ala 3, interpretado por Gael García Bernal. Isso porque ele é apresentado como Barman do hotel, mas depois, quando vai para a quarentena, passa a controlar a comida e a exigir jóias e mulheres em troca. Um dos momentos engraçados é quando ele pinta as unhas e imita Steve Wonder cantando "I just call to say I love you".

Além de São Paulo, o longa foi filmado no Canadá (em uma prisão desativada) e nas ruas de Montevidéu, no Uruguai.

domingo, 7 de setembro de 2008

Balzac e a crise dos 30

Quando tinha 29 anos, as pessoas começaram a falar que, em breve, me tornaria Balzaquiana. Aliás, antes que você se pergunte: “Quantos anos será que ela tem?”, já respondo logo: tenho 30. Ou melhor (ou será pior?), completo 31 antes de 2008 terminar.

Voltando aos 29. Quer dizer, a Balzac. Para descobrir o motivo do adjetivo, resolvi comprar o livro “A Mulher de Trinta Anos”, escrito por Honoré de Balzac no início do século 19, e começar a ler. Ainda com 29, passei duas semanas em Paris e, entre uma viagem de metrô e outra, sacava da bolsa o livreto e lia um pouco sobre a história de Julie. No entanto, como aquele romance é arrastaaaaaado, ainda não o terminei de ler, até porque a urgência dos livros acadêmicos que fazem parte da bibliografia do curso de pós-graduação é muito maior.

Em um dos trechos, Balzac escreve: “Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido.

Pois bem, cá estou sobrevivendo aos 30, com um pé nos 31, e pouca coisa mudou na minha vida. É claro que sempre assusta quando penso no tempo que já passou, mas me anima muito mais quando olho adiante. Afinal, 30 não é 80.

Mario Prata escreveu na revista “Época” uma crônica justamente sobre a mulher de 30, “aquela que podemos encontrar na frente das escolas pegando os filhos ou num balcão de bar bebendo um chope sozinha”. Ele faz comparações entre duas mulheres, aquela que já se casou e teve filhos, e aquela que ainda não pensou nisso. E faz muitos elogios: “Elas talvez não saibam, mas são as mais bonitas das mulheres. (...) Mas o que mais me encanta nas mulheres de 30 é a independência. (...)São fortes as mulheres de 30. E não têm pressa pra nada. Sabem aonde vão chegar. E sempre chegam.”

O assunto, aliás, é recorrente tanto na vida real como na ficção. Bridget Jones viveu isso na literatura e, mais tarde, no cinema. Discutiu com moças de 30 anos como era a sua vida de solteira e as dificuldades de encontrar o par ideal, principalmente depois que já se é independente, tem-se o próprio dinheiro e sabe que pode ficar (bem) sozinha. No mínimo, sabe que o ditado “antes só que mal acompanhada” é verdade.

Carrey, personagem vivida por Sarah Jessica Parker no seriado “Sex and the City”, é outro exemplo de mulher com 30 anos que sabe muito bem o seu limite, pode viver sem um namorado, mas não abre mão de buscar um companheiro para dividir a sobremesa, o travesseiro e ter um ombro para apoiar a cabeça enquanto assiste a uma sessão no cinema.

Motivada por uma reportagem, outro dia provoquei uma discussão entre moças de 30 anos que ainda não se casaram. Na ocasião, falei para elas que não será fácil encontrar o príncipe encantado com a lista de exigências que priorizamos. Na verdade, acho que os rapazes se assustam quando percebem que se trata de moça independente, que batalha para ter seu dinheiro, tem sucesso na carreira e não aceita que ele seja diferente.

Ao mesmo tempo, com toda essa independência, ela quer que ele seja “démodé” ao ponto de abrir a porta do carro para ela entrar, dar preferência para ela entrar em uma sala ou subir a escada rolante, e que seja, sobretudo, atencioso. Um homem bem-sucedido, mas que não fique pendurado ao celular enquanto estiver em um jantar romântico; que se prontifique a carregar as suas sacolas, que seja gentil.

Comecei a ler, recentemente, “As 10 Mulheres que Você Vai Ser Antes dos 35”, de Alison James. O primeiro capítulo, “A Recém-Formada”, me irritou um pouco, principalmente porque parece que faz muuuito tempo que passei por isso. E na verdade faz mesmo, mais de 10 anos. Para não perder tempo (e não desistir de chegar até o final), pulei também o capítulo 2, “A Diva Sem Um Centavo”. Li e me concentrei em “A Abelhinha Trabalhadeira”, mas acabei pulando “A Rainha da Balada” e “A Gata Ligada no Corpinho”. Tem coisas que é melhor a gente ignorar. Enfim, cheguei no sexto capítulo, “A Camaleoa” e prossegui para o “A Garota em Crise”, “Dona do Própria Nariz”, até chegar no nono capítulo: “A Marota – Metade Mulher/Metade Garota”. O livro, há de se dizer, não é lá grande coisa, mas em alguns trechos me fez pensar, refletir e rir. Cheguei a chorar a determinada altura, principalmente quando me fez ponderar sobre o fato de o tempo estar passando, definitivamente, rápido demais.

Espero conseguir terminar de ler o livro de Balzac, mas a Alison James me deu mais uma chance. Ela escreveu, no capítulo sobre a crise, que 33 é o novo 30. “Homens e Mulheres de todo o mundo não precisam mais se tornar trintões. As pessoas se formam mais tarde, se casam mais tarde e tudo mais na vida parece acontecer um pouco mais tarde para essa geração (ou seja, a minha!). Assim, 33 é o novo 30 e 30, bem, está mais parecido com 27.” Ufa! Tenho mais três anos para ter (outra) crise.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Canções de Amor

Christophe Honoré é um dos diretores franceses que mais têm se destacado no cenário mundial. Autor do longa-metragem “Em Paris”, que passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado, e depois entrou no circuito, desta vez estréia nos cinemas, sexta-feira, dia 5 de setembro, “Canções de Amor” (“Les Chansons d'Amour”). Além de escrever o roteiro e dirigir a fita, Honoré recrutou novamente Louis Garrel, que também era protagonista em seu filme anterior.

A narrativa, há de se dizer, não é fácil nem destinada a qualquer público, já que se trata de filme francês (cujas projeções geralmente se limitam aos cinemas do circuito de arte, ou seja, arredores da Avenida Paulista) e também por ser um musical. Na verdade, foi a partir das canções escritas por Alex Beaupain que Honoré chegou ao roteiro final. Então, o diretor coloca os atores para interpretar e cantar, vez ou outra, durante o enredo, principalmente quando estão falando de amor (daí o nome do filme).

Novamente, como “Em Paris”, muitos trechos são filmados em locações da capital francesa, tendo orientação totalmente urbana, assim como os apartamentos dos pais, onde eles se revezam e acabam formando, digamos, um “ménage à trois” (para ficar no idioma de origem).

No filme, Louis Garrel é Ismael, um rapaz que vive em Paris e namora Julie (Ludivine Sagnier), que mora com Alice (Clotilde Hesme), que trabalha no jornal com Ismael. E está fechado o círculo amoroso, que inclui relacionamentos homossexuais não apenas entre as meninas, mas também, como é possível conferir adiante, entre Ismael e um outro personagem.

Embora essa atração possa chocar alguns puritanos, “Canções de Amor” é intimista, cheio de detalhes e aproxima o espectador da narrativa. Há referências, inclusive, da nouvelle vague, o movimento que começou com Jean-Luc Godard e prosseguiu nas mãos de François Truffaut. No entanto, o filme vale mesmo pela direção de atores, pela interpretação do queridinho francês Louis Garrel, pelas locações clássicas que aparecem em Paris e, claro, pelas belíssimas canções que falam de amor (algo há muito esquecido por uns e outros).

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O texto também pode ser lido no CineNet

Caçadores de Dragões

Esqueça as piadas de filmes de animação, como “Os Simpsons”, “Shrek”, “Wall-E”, e assim por diante. A animação francesa “Caçadores de Dragões” (“Chasseurs de Dragons”) está mais para “Horton e o Mundo dos Quem!”, principalmente por conta do público para qual o filme é destinado. Não dá para dizer que “Caçadores” é um longa para a família toda, pois os pequenos irão se divertir e os pais que levarão, nem tanto.

A história fala sobre Zoe, uma menina louca pelos contos de fadas e, para ajudar seu tio a se livrar de um dragão, decide encontrar heróis com os que vê em seus livros. No entanto, ela acaba conhecendo Guisdô e Lian-Chu, dois caçadores de dragões, cuja única ambição na vida é comprar um pedaço de terra e viver em paz.

Daí pra frente a aventura está garantida, pois os três sairão para caçar dragão e passar por enrascadas enormes. Entre uma luta e outra, sobram algumas piadas para animar a platéia.

Criado primeiro para a televisão, o filme tem direção de Guillaume Ivernel e Arthur Qwak, que até então só tinham feito o trabalho para a telinha. Em 3-D, a fita é bem-feita, com desenhos bem-delineados, movimentos naturalistas. As canções compostas por Klaus Badelt (o mesmo de “Constantine” e “Poseidon”) ajudam a dar o clímax para formar a história bem-contada, com apresentação dos personagens, desenvolvimento da narrativa até o desfecho. Embora os personagens falem francês, as cópias que teremos no Brasil serão todas dubladas em português.