sexta-feira, 30 de novembro de 2007

No Vale das Sombras

É por conta da falta de notícias do filho que foi lutar no Iraque que ocorre o desenrolar da história contada no longa-metragem “No Vale das Sombras” (“In The Valley of Elah”), que estréia nesta sexta-feira, dia 30 de novembro. Hank Deefield (Tommy Lee Jones em ótima forma), um ex-policial militar, recebe um telefonema do exército dizendo que seu filho já havia voltado do front há uma semana e, portanto, passa a ser um foragido.

A partir de então, Hank corre para coletar informações sobre o paradeiro de Mike (Jonathan Tucker), seu único filho, já que o outro havia falecido em decorrência de um acidente. Sua esposa, Joan (Susan Sarandon), fica em casa para esperar as notícias. Com bastante má vontade, porém, é a detetive Emily Sanders, vivida por Charlize Theron, que Hank terá ajuda para encontrar pistas para descobrir por onde anda Mike. E é com a tarimba de quem já viveu aquela vida e que conhece com quem deve tratar, é que Hank irá conduzir as investigações, sempre apontando os indícios para a novata Emily.

Em algumas passagens, principalmente quando aparecem colegas de Mike contando sobre a guerra, é possível se lembrar de alguns fatos que vimos publicados em jornais na época, com ênfase no fato de os soldados ridicularizarem os nativos daquele país, em cenas que deixaram o mundo todo chocado.

Dirigido e roteirizado por Paul Haggis (“Crash – No Limite”), o filme é inspirado em fatos reais e partiu de um artigo escrito por Mark Boal, publicado na revista Playboy. Como também é o produtor do longa, Haggis pediu ajuda a Clint Eastwood, com quem trabalhou em “Menina de Ouro”, para lhe apoiar quando fosse ao estúdio oferecer o roteiro.

Em seu filme anterior, vencedor do Oscar, ele se volta para contar uma história sobre conexão, quando os personagens vão se interligando por intermédio de um acontecimento. Desta vez, Haggis aponta as suas lentes para um filme extremamente ufanista, simbolizado principalmente pela bandeira norte-americana hasteada nas portas das casas, e que diz muito mais aos americanos que para os outros povos. A fita, aliás, se volta muito mais para a dor dos pais que ficam à espera da volta dos filhos que propriamente para a guerra no Iraque.

Embora o título em português não tenha nada a ver com o nome original, há uma passagem no filme em que o personagem de Tommy Lee Jones explica que in the valley of elah refere-se ao lugar em Israel onde, de acordo com a Bíblia, ocorreu a batalha entre Davi e Golias há mais três mil anos.

“No Vale das Sombras” é um drama familiar que envolve o espectador e o faz acompanhar a busca insaciável da família pelo filho, que não deixa pistas sobre onde pode estar. Com as interpretações incríveis de Jones e Susan, o público é convidado a se inserir na história e a esperar por notícias boas.

A Última Hora

A idéia não é nova, nem inovadora, mas o documentário “A Última Hora” (“The 11th Hour”), que estréia nesta sexta, dia 30 de novembro, vem a calhar novamente. Ex-candidato à presidência dos Estados Unidos, Al Gore escreveu “Uma Verdade Inconveniente”, documentário vencedor do Oscar 2007. O filme nada mais é que um alerta sobre o aquecimento global. Muito bem feito, por sinal, e que repercutiu como uma ótima chance de divulgar o conceito do problema e o que cada um pode fazer para combater.

Desta vez, quem produz e narra a história é o astro Leonardo DiCaprio, sob as batutas de Leila Conners Petersen e Nadia Conners, responsáveis também pelo roteiro. Outra vez, o filme é baseado em entrevistas com especialistas que comentam desde a origem da vida, até os problemas causados pelo Homem até hoje e que influenciam para o tal do aquecimento global.

No longa, discute-se sobre o efeito estufa, o lixo produzido pelas fábricas, a sujeira que são jogadas no oceano, formando um ciclo vicioso, uma vez que muitos alimentos são retirados e consumidos por pessoas, que desenvolvem doenças provenientes desse mercúrio que ela despeja nos mares.

Leonardo DiCaprio chega à tela para fazer questionamentos e alertar a população sobre o último momento que nos resta, mas que ainda há chance de mudar.

É verdade que não há muitas respostas, mas há diversas perguntas sobre como se chegou a esse ponto e um questionamento sério a respeito do que as autoridades podem fazer para reverter o quadro nada otimista.

Ao todo, foram entrevistadas 70 especialistas, o que gerou cerca de 150 horas de gravação, como o antigo primeiro-ministro soviético Mikhail Gorbachev, o cientista Stephen Hawking, o homem que chefiou a CIA, R. James Woolsey, e autoridades em projetos de sustentabilidade como William McDonough e Bruce Mau, além de mais de 50 cientistas, pensadores e líderes, que apresentam fatos e discutem os principais temas com que hoje se defronta nosso planeta. A partir deste material, foi realizada montagens com imagens do planeta e de diversos elementos que compõem a narrativa. As imagens de DiCaprio na Antártica mostram os transtornos do aquecimento global, principalmente sobre o derretimento das geleiras.

A contar que o documentário é muito mais didático (e cansativo) que “Uma Verdade Inconveniente”, mas sem a idéia de que é feito para autopromoção, “A Última Hora” é sessão obrigatória para todos, pois trata-se de um alerta e questionamento sobre o futuro do Planeta em que todos vivemos. A figura de DiCaprio é, sem dúvida, um bom apelo comercial, que deve atrair fãs do rapaz. Uma boa maneira de falar sobre um assunto sério e urgente. Para completar, a banda Coldplay faz parte da trilha sonora, além da música original de Eric Avery.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Em tempo...

Hoje (ou será ontem, já nem sei mais os dias) foi publicada no Guia da Semana a minha coluna deste mês, que fala sobre o cinema francês. Aproveita e dê uma passadinha lá!

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

São poucos os filmes que já se sabe o final antes mesmo de assisti-lo. “Titanic” é um exemplo clássico: já se sabe que o navio afundará, em algum momento. Com o nome “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” (“The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford”), longa-metragem que estréia nesta sexta-feira, dia 23 de novembro, já se sabe o que acontecerá. Mas pelas lentes do diretor e roteirista Andrew Dominik será possível conhecer o desenrolar da história, ou seja, como Robert Ford (Casey Affleck), de apenas 19 anos, cria coragem para matar o terrível bandido Jesse James, vivido pelo astro Brad Pitt.

A fita é baseada em livro escrito por Ron Hansen, que será lançado no Brasil no mesmo dia em que estréia o filme pela Editora Novo Conceito (R$ 39,90, 334 páginas). O famoso fora-da-lei foi objeto de adoração e admiração no final do século 19, quando roubava bancos e donos de ferrovias que tiravam vantagem de pobres fazendeiros. Robert Ford, aliás, era um de seus principais admiradores, lia histórias sobre o bandido, sabia sobre toda a sua vida. Mas talvez pela admiração e por ser muitas vezes mal-tratado pelo ídolo, Ford é taxado de covarde porque atirou em Jesse James pelas costas, não dando chance de ele se defender. Outro detalhe é que foi James quem lhe deu a arma e o acolheu em sua própria casa, onde viviam sua mulher (Mary-Louise Parker) e seus dois filhos (Brooklynn Proulx e Dustin Bollinger).

Dominik, que até então só havia feito “Chooper”, lançado em 2000, abusa dos planos que contam histórias através das janelas, tal como John Ford costumava fazer. Embora este não seja um filme sobre o Velho Oeste, há muitas referências aos westerns do diretor americano que filmou “No Tempo das Diligências”, até porque o longa fala dessas diligências que eram muito comuns naquele tempo.

Outro detalhe são os planos contra-luz, closes e iluminação supostamente feita com vela e lampião, dando à fotografia uma bela textura e cor. O diretor, que também é o autor do roteiro ao lado do escritor do livro, contempla muitas narrações em off, diálogos curtos e sotaque carregado. Brad Pitt, aliás, parece um rapper americano, que fala rápido, quase sem abrir os lábios e se mostra primorosamente como um canastrão, que fuma charuto durante todo o tempo em que elabora o seu próximo grande assalto e que está sempre armado, até quando toma banho.

Já Affleck, que contracenou com Pitt em “11 Homens e um Segredo”, assim como as duas seqüências seguintes da franquia, é tímido, fala pouco, não olha nos olhos. É como se o tempo todo estivesse juntando motivos para eliminar o ídolo pelas costas. Assim também segue o espectador, que vai juntando elementos e construindo motivos para descobrir o que afinal levou Jesse James à morte. Para completar o elenco, Sam Rockwell faz o papel de Charley Ford, irmão de Bob e que contribui para o desenrolar da história.

“O Assassinato de Jesse James...” é um filme lento, na medida em que demora para contar a história e chegar ao final, fazendo com o público possa se desmotivar no decorrer da projeção. Outro detalhe dispensável, além da demora, são cenas do final, como uma encenação no teatro, que não acrescenta nada à produção e economizaria alguns metros de película. Enfim, o figurino de época e a trilha sonora bem-colocada completam a obra.

Lady Chatterley

Adaptação do clássico romance de D.H. Lawrence, “Lady Chatterley” estréia nos cinemas nesta sexta, dia 23 de novembro, depois de ser apresentado aos cinéfilos durante a 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que aconteceu em outubro e exibiu mais de 400 longas-metragens.

A fita conta a história de Constance Reide (Marina Hands), jovem que se casa aos 23 anos com o universitário Clifford Chatterley (Hippolyte Girardot), que após lutar na guerra, no início do século 20, volta para casa e fica preso a uma cadeira de rodas. Os dois vivem no interior da França, em uma grande propriedade da família, onde a moça se sente isolada e começa a se lembrar de sua vida de solteira. Entre um passeio e outro na fazenda, Constance se envolve com o caçador de animais Parkin (Jean-Louis Coullo’ch), com quem viverá quentes tardes de amor.

Basicamente é esta a história que a cineasta francesa Pascale Ferran, após hiato de 11 anos longe do cinema, conta no longa cujo roteiro tem a sua participação, além de Roger Bohbot, D.H. Lawrence e Pierre Trividic. Trata-se de uma linda história de amor que retrata o período pós-primeira Guerra Mundial.

A atriz francesa Marina Hands constrói a sua personagem de maneira singular, de modo que ela mostra a dona-de-casa da época que comanda as criadas, serve o seu marido, costura e borda, mas não abre mão de ser uma mulher, que tem desejos e vontades, quando sai todas as tarde para um passeio no campo, onde caminha entre flores, conversa com funcionários da propriedade e se envolve emocionalmente (ou será apenas carnalmente?) com o caçador que vive em uma cabana. O ator Coullo’ch, como o caçador, tem aspecto truculento, é grande, forte, rude, mas ao mesmo tempo mostra ternura quando se relaciona com a patroa, e também não abre mão do seu casamento.


As imagens mostradas por Ferran retratam a sexualidade dos dois, mostram a liberdade com que os amantes se envolviam e sem a preocupação de serem descobertos, afinal de contas, o marido, embora fosse dono de muita coisa, não podia controlar a esposa. A direção de arte e o figurino retratam a época de maneira apropriada (o longa ganhou, entre outros prêmios, o César 2007 – o Oscar francês – de Melhor Figurino, Melhor Fotografia, Melhor Filme e Melhor Atriz), de modo que remete o espectador à época em que se conta a história.

Com quase três horas de duração, “Lady Chatterley” não tem pudores em contar uma história sobre amor paralelo, mostrando os atores nus e em cenas bizarras (como a que eles cobrem as partes pubianas com plantas enquanto deitam e rolam na floresta). Deste modo, o romance francês, em parceria com a Inglaterra e a Bélgica, é lento, bem-elaborado e fala sobre a realização sexual, mas sem ser grosseiro ou extravagante.

Oscar Niemeyer - A Vida é um Sopro

Documentário dirigido por Fabiano Maciel apresenta depoimentos do mestre da arquitetura Oscar Niemeyer, comentando um pouco sobre cada produção, como Brasília, Pampulha, obras no Rio de Janeiro e também na França e na Argélia, e como revolucionou a arquitetura substituindo o ângulo reto pela linha curva, concebida principalmente pelo uso do concreto armado. Espontaneamente, Niemeyer, que completou 100 anos em 2007, desenha, diz muitos palavrões e ataca a ignorância alheia com relação à arte. Há também depoimentos de Chico Buarque de Hollanda, Carlos Heitor Cony, Ferreira Gullar, Nelson Pereira dos Santos, José Saramago, Mario Soares, entre outros, completando o time.

Paris, Te Amo

O longa-metragem reúne 21 diretores que vão contar 18 histórias com cerca de cinco minutos cada, com Paris como personagem. Para encarar a façanha, foram convidados os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas, os Irmãos Coen, Gus Van Sant, Isabelle Coixet, Alfonso Cuaron, entre outros. Os irmãos Joel e Ethan Coen ficaram responsáveis por "Tuileries", o filme que conta sobre o turista no metrô que não entende nada de francês e se envolve em uma briga com o casal de namorados por puro ciúme. Na seqüência, é a vez de os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas contarem a história "Loin du 16e", sobre uma babá que deixa a sua filha em casa e sai da periferia para cuidar de uma outra criança em um lugar chique da cidade. "Parc Monceau", de Alfonso Cuaron, com Nick Nolte no elenco, foi feito com uma única tomada. O longa é uma declaração de amor feita por cineastas franceses e estrangeiros, que apontam as suas lentes para mostrar o romantismo da cidade, mesmo que ela seja mostrada dentro de uma gráfica, de um cemitério ou de um apartamento.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Crimes de Autor

A cada semana, mais filmes franceses entram em cartaz, embora passe despercebido pelos freqüentadores de redes de cinema exclusivamente comerciais. No mês passado, por exemplo, estreou "Piaf - Um Hino ao Amor", uma produção sobre a vida da cantora francesa Edith Piaf, com direção de Olivier Dahan. Semana que vem, dia 23, estréia outro, "Lady Chatterley", dirigido por Pascale Ferran.

Quem tem a oportunidade de partir para salas de cinema que ficam ao redor da Avenida Paulista, por exemplo, pode acompanhar estréias importantes como a de "Crimes de Autor" ("Roman de Gare"), que entra em cartaz a partir do dia 16 de novembro, com certeza em um curto circuito, justamente após passar pela 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que aconteceu no mês passado.

Na ocasião, o diretor do filme, Claude Lelouch, marcou presença e aproveitou para debater sobre sua nova obra com os cinéfilos de plantão.

Na fita, a famosa escritora Judith Ralitzer (Fanny Ardant) é acusada pelo assassinato de seu ghost-writer Pierre (Dominique Pinon) durante estadia em seu iate no mar de Cannes, onde os dois se refugiaram para que ele escrevesse o seu mais novo romance.

No entanto, no meio do caminho para a cidade litorânea, Pierre conhece a cabeleireira Huguette (Audrey Dana), que servirá de inspiração e personagem para a história, mas também desencadeará um novo destino.

Com produção e roteiro também de sua autoria, Lelouch conta uma história singular, intimista e consegue, por intermédio de suas lentes, inserir o espectador na trama e fazer com que ele viaje junto pelas estradas francesas, fazendo desta obra também um "road movie".

Além de a história se passar em um posto de gasolina na estrada, outra locação é uma cidade do interior onde mora a família de Huguette, bem como o iate da rica escritora.

Durante toda a projeção, Lelouch mantém o mistério sobre a personalidade do ghost-writer, uma vez que há também indícios de que um serial killer fugiu da prisão. Dominique Pinon desenvolve bem o seu papel e convence o espectador, assim como Audrey Dana, no papel da cabeleireira, que divide o seu tempo como garota de programa, embora queira mudar de vida para dar orgulho à filha (que vive com seus pais longe de Paris).

"Crimes de Autor", nome dado a uma das obras da escritora, traz uma mistura de drama, mistério e romance, que vai prender o espectador do início ao fim. A trilha sonora, com música original de Alexandre Jaffray, completa a obra de arte.

Harry Potter e a Ordem da Fênix

O longa inicia-se com Harry Potter (Daniel Radcliffe) junto com seu primo Duda Dursley (Harry Melling) que, após se desentenderem, são atacados pelos dementadores. Para salvar a pele de ambos, Potter usa seus conhecimentos de magia. Alastor Olho-Tonto Moody (Brendan Gleeson) aparece com outros aurores para resgatar Harry. Para combater o mal, já que o ministro da magia Cornélio Fudge (Robert Hardy) não acredita na volta de Lorde Voldemort (Ralph Fiennes), muitos se reúnem e formam a sociedade secreta Ordem da Fênix. Outro problema que Harry, Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson) vão enfrentar é a professora Dolores Umbridge (Imelda Staunton). A quinta parte do filme é sombria (tal como os anteriores), mas David Yates faz seu trabalho de direção com competência, executa travellings de modo a dar maior dimensão à produção. A trilha sonora, a cargo de Nicholas Hooper, é belíssima, na medida em que seu sincronismo cumpre o papel muito bem.

Piratas do Caribe: No Fim do Mundo

Nesta última parte, o lorde Cutler Beckett (Tom Hollander), da Companhia das Índias Orientais, tem o controle do navio fantasma e de seu capitão Davy Jones (Bill Nighy). Com a intenção de derrotar Beckett, Will Turner (Orlando Bloom), Elizabeth Swann (Keira Knightley) e o capitão Barbossa (Geoffrey Rush) seguem em missão para reunir os Nove Lordes da Corte da Confraria. Mas ainda está faltando um deles, o capitão Jack Sparrow (Johnny Depp). Ainda mais exagerado do que "Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra", esta terceira parte extrapola nos efeitos especiais, na maquiagem, no figurino da época, na câmera nervosa que acompanha as lutas entre os inimigos. Mais uma vez, o filme é todo de Johnny Depp que, a exemplo dos anteriores, tem uma brilhante atuação e prova que ainda é possível fazer filmes de piratas sem ficar caricato e, claro, com bom-humor.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Parisiense por uns dias

Eu não gosto de pedir informações quando estou perdida na rua. Muito mais por medo de uma pessoa mal-intencionada que pode me mandar pra bem longe que por auto-suficiência. Em compensação, parece que há uma placa com algo tipo: “Serviço de Ajuda ao Cidadão Perdido” colada na minha testa. Só eu pisar a rua, que já vem um perguntar onde fica a avenida tal.

Isso acontece desde quando eu era criança e voltava da escola a pé segurando a mão do meu irmão caçula. A gente voltava junto pra casa, mas um dia vieram me perguntar onde ficava a avenida Moreira Guimarães. E eu fui explicar para o motorista e ele... bom, deixa pra lá, não quero lembrar dessa história.

Mas mesmo depois que eu cresci um pouco e ficava andando de casa pro shopping, para a casa dos meus amigos, para a escola, vinha sempre alguém perguntar. Era até compreensível, porque é muito fácil se confundir com tanto nome de pássaros e aldeias indígenas que dão nomes àquelas ruas.

Depois que vim morar aqui, há 11 anos, a história continua se repetindo, mas o que confundem as pessoas agora são os nomes das flores que dão nomes às calçadas. Além de ser um labirinto, os nomes são muito parecidos.

Quando estive em Paris, pasme!, vieram me pedir informação. E o pior: em francês. Danou-se, porque eu não sabia nem onde eu estava, nem sabia falar o idioma da pessoa, imagine dar informação. Enquanto a pessoa (na verdade foram duas vezes) ia me perguntando, eu ia fazendo aquela cara de interrogação que até ela entender que eu não estava compreendendo nada, demorou.

No último dia em que eu fiquei na cidade, porém, eu estava passando perto da Place de la Concorde quando duas mulheres se aproximaram e dispararam:

- Do you speak english?

- Ufa, pensei. Pelo menos não vieram falando francês sem parar.

Depois da minha resposta positiva, elas me perguntaram se eu sabia onde fica o museu L’Orangerie. A primeira resposta que me veio a cabeça era dizer:

- No, sorry.

Mas eu não podia, porque eu tinha justamente saído de lá. Respirei fundo e, como se eu vivesse ali desde criancinha, fui explicando para as duas como chegar ao museu de arte impressionista. Mais dois meses ali e eu poderia jurar que nunca tinha morado em outro lugar.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Leões e Cordeiros

Nada mais atual que discutir guerra, educação e influência da mídia nos cinemas. É partindo deste princípio que o roteirista Matthew Carnahan ("O Reino") propõe no longa-metragem "Leões e Cordeiros" ("Lions for Lambs"), que estréia nesta sexta, dia 9 de novembro.

A fita, sob a direção de Robert Redford, que também atua em um dos núcleos, conta três histórias que vão, de certa forma, se interligar. O senador da República Jasper Irving, vivido por Tom Cruise, mostra ao espectador o lado político da guerra do Afeganistão. Para desmistificar algumas observações que costumam ser publicadas na mídia, ele convoca para uma reunião a influente jornalista (a brilhante Meryl Streep).

Durante a conversa entre os dois, é possível conhecer um pouco o papel do político (que está sempre manipulando as informações) e a da jornalista, que a todo custo pretende esmiuçar cada palavra para que nada seja mal-entendido.

Em outro ponto do filme está o professor idealista Malley (Robert Redford), que tenta convencer, com observações ásperas e certeiras, um de seus alunos mais promissores (Andrew Garfield) a mudar o curso de sua vida, pois o rapaz sabe ser articulado e se fazer entender defendendo um ponto de vista específico, mas não aparece nas aulas.

Na mesma escola estão dois rapazes (Derek Luke e Michael Peña), que deixam as carteiras escolares após defenderem um trabalho curricular para entrar no exército americano e defender o país nas montanhas cobertas de neve do Afeganistão.

Mesclando e intercalando um núcleo e outro do filme, Robert Redford conta uma história ufanista que pretende instalar discussão sobre as questões da vida atual nos Estados Unidos. Os diálogos são bem-construídos e inteligentes e promovem a reflexão do espectador diante de todos os acontecimentos atuais e ficcionais que são expostos pelos atores.

Meryl Streep, como a jornalista inquisitiva, faz perguntas e é incansável na maneira de questionar e obter informações do governo norte-americano, principalmente quando há vestígios de que todo aquele discurso é pura promoção pessoal. Tom Cruise, que ultimamente só tem protagonizado filmes de ação como "Missão Impossível 3", "Guerra dos Mundos", "Colateral", é também o produtor deste longa e seu personagem não mostra nada daquela adrenalina dos filmes anteriores. Trata-se de um personagem muito mais centrado, que fica unicamente em seu gabinete decorado com fotos posadas ao lado do presidente George W. Bush, por exemplo, tentando convencer uma jornalista de seus propósitos políticos. Outro destaque vai para o aluno vivido por Andrew Garfield, que traz respostas prontas ao seu professor, sempre quando abre discussões por assuntos que ele mesmo não domina, mas é um ótimo orador.

"Leões e Cordeiros" não traz inovações cinematográficas quanto à sua forma de apresentação e à arte, mas consegue incluir em seu conteúdo questões a serem pensadas e refletidas. Principalmente no final, quando cabe ao espectador, a livre conclusão de cada núcleo.

O Búfalo da Noite

O escritor mexicano Guillermo Arriaga pode não ser muito conhecido no Brasil por suas obras, mas como roteirista dos filmes "Amores Brutos", "21 Gramas" e "Babel" ele já é bastante conhecido. E aplaudido. Desta vez é o seu romance "O Búfalo da Noite" ("El Búfalo de la Noche") que vai para a tela grande roteirizado por ele mesmo, em parceria com Jorge H. Aldana, que foi escolhido por Arriaga para colaborar, de modo a não ficar apenas na sua mão.

O longa-metragem, que estréia no circuito dia 9 de novembro, após participar da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, conta a história do esquizofrênico Gregorio (Gabriel González), que entra e sai de clínicas psiquiátricas porque está sempre vendo coisas e se sentindo perseguido. O rapaz de 22 anos é apaixonado por Tania (Liz Gallardo) e seu melhor amigo é Manuel (Diego Luna). Mas, entre uma internação e outra do companheiro, Manuel não resiste à paixão pela namorada do amigo. Até que os dois começam a namorar e, entre idas e vindas, Gregorio descobre o romance dos dois e se suicida.

Após o trágico desfecho, Manuel descobre coisas que o fazem se sentir péssimo. Então, começa uma nova história, em que participa também a irmã de Gregorio, Rebeca (Camila Sodi), uma moça jovem que teve um rápido namoro com Manuel.

Além de co-escrever o roteiro, Aldana é ainda o diretor da fita e este é o seu primeiro longa, uma vez que em seu currículo só há produções na televisão e curtas. Aldana aponta suas lentes aos personagens, de modo a revelar a esquizofrenia presente não apenas naquele vivido por Gabriel González, mas também nos outros, afinal de contas, todos têm as suas loucuras e fraquezas.

Com a câmera na mão, e a fotografia escura, ele apresenta uma história tensa do começo ao fim, e seus personagens demoram a convencer o espectador, principalmente pela história estranha. Apesar disso, "O Búfalo da Noite" faz parte da programação de cinema mexicano que todos devem conhecer.

Planeta Terror

Imagine um filme trash, com todas aquelas nojeiras em forma de gelatina gosmenta, passando por um enredo adolescente, mas feito por um excelente diretor como Robert Rodriguez. Pronto, assim é "Planeta Terror" ("Planet Terror"), que estréia dia 9. No Brasil, porém, o longa-metragem chega em formato diferente daquele que foi apresentado no exterior. Na verdade, a fita é uma parte de "Grindhouse", feito em conjunto com o moderno Quentin Tarantino. A outra parte, de autoria dele, chama-se "À Prova de Morte" e deve chegar por aqui somente em março de 2008.

A história, que pretende resgatar os filmes de zumbis, fala sobre o casal de médicos William e Dakota Block (Josh Brolin e Marley Shelton) que encontram no cemitério pessoas destruídas por conta de feridas pustulentas. Entre os feridos está a dançarina Cherry (Rose McGowan), cuja perna foi arrancada. Daí para a frente, Wray (Freddy Rodriguez), seu ex-amante, e Cherry lideram uma equipe de guerreiros para lutar e encontrar o último lugar seguro.

Com jeito de HQ, com Cherry sendo a heroína de saia curta e botas de cano longo (e perna com a metralhadora), o filme conta ainda com Bruce Willis e Tarantino no elenco. A película, cheia de riscos e rabiscos, confirma a tendência trash e bizarra, mas que garante boas risadas.

Pode ser que o filme agrade aos adolescentes, mas com censura 18 anos, fica difícil pensar em bilheteria.

Ratatouille

A animação da Pixar conta a história de Remy, um rato que vive no esgoto, mas não tem idéia que acima de sua cabeça está Paris. Por conta de um desencontro com seus familiares, ele se vê sozinho, com um livro de culinária, e começa a conversar com o fantasma de Auguste Gusteau, um cultuado chef de cozinha da França. Dirigido por Brad Bird ("Os Incríveis"), o filme mostra o talentoso Remy ajudando o faxineiro Linguini (Lou Romano) na cozinha e, então, os dois desenvolvem uma amizade improvável e espírito de união. Um dos pontos altos da fita é o bom humor do roteiro, que é bastante delicado, convincente e bem-escrito, além do desenho, pois a Paris retratada na animação consegue mostrar os encantos da Cidade Luz e seus pontos turísticos, como o Rio Sena, a Catedral de Notre-Dame, bistrôs. O DVD vem repleto de bônus, incluindo três curtas-metragens: "Seu Amigo O Rato", "Gastronomia e Filmes", "Quase Abduzido".

O Último Rei da Escócia


A história começa na Escócia, quando o médico Nicholas Garrigan (James McAvoy) decide sair de seu país e, com um giro do globo, segue para Uganda. Lá, ele conhece a médica Sarah Merrit (Gillian Anderson) e começa a trabalhar para ajudar o povo, que sofre com a falta de especialistas de saúde. No entanto, após socorrer o presidente daquele país, Idi Amin (Forest Whitaker), e de o ditador saber que o médico é escocês, Nicholas é convidado a ser seu médico particular. Sem violência gratuita, o longa mostra passagens sangrentas, ambição, mas sem se esquecer das festas e dos problemas sociais. Forest Whitaker levou o Oscar de Melhor Ator por sua brilhante atuação.

Borat

Depois de levar quase 500 mil espectadores no Brasil e render US$ 200 milhões na bilheteria mundial, o filme conta a história caricata de um jornalista do Cazaquistão que vai para os Estados Unidos fazer um documentário sobre o estilo de vida americano. Durante a viagem pelo país, Borat conhece pessoas reais em situações verdadeiras com conseqüências hilariantes (e muitas vezes constrangedoras). O ator Sacha Baron Cohen tem a cara-de-pau que faz as pessoas se divertirem às suas custas, embora ele possa agredir os mais puritanos.


quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Um Verão Para Toda Vida

Quando aparecem os créditos, já dá para se dar conta de que vem, no mínimo, um filme com belas locações. Isso porque “Um Verão para Toda Vida” (“December Boys”), que estréia nesta sexta-feira, dia 2 de novembro, foi inteiramente filmado na Austrália. A fita, dirigida por Rod Hardy, que especializou-se em séries de televisão, tem um toque de saudosismo, mas é tudo proposital.

Narrado em primeira pessoa por um dos personagens já adulto, o filme pretende apresentar como a infância pode ser um período de conhecimento, aproximação, descobertas, diversão e, claro, muito aprendizado. A voz que escutamos em off é do ator Max Cullen, que, obviamente, só aparecerá no final, como é bastante previsível. Mas é sobre a sua história, e de outros três órfãos que vivem com ele em um convento católico que ele vai contar.

A narrativa é baseada no romance de Michael Noonan e se passa nos anos 1960, no deserto da Austrália (Outback). Mas ele, conhecido como Misty (Lee Cormie), e mais os outros três adolescentes, aniversariantes de dezembro, portanto os December Boys, são enviados pelo convento para umas merecidas férias em uma cidade praiana. A partir de então, a vida dos quatro nunca mais será a mesma e aquele verão será memorável entre Maps (Daniel Radcliffe), Spark (Christian Byers) e Spit (James Fraser).

Inicia-se portanto uma viagem na costa Australiana, com suas paisagens deslumbrantes, mares de cores claras e visual ímpar. Os rapazes, que nunca tinham visto algo assim, são capazes de aprontar muito, de realizarem descobertas sobre o sexo feminino e também de acreditar que um dia poderiam ter uma família tal como as que vivem naquele local e, por que não?, serem adotados por casais que não conseguem ter filhos.

O personagem vivido por Daniel Radcliffe, que ficou muito conhecido no cinema por viver o personagem-título da franquia “Harry Potter”, é o mais velho dos três e vê em Lucy (Teresa Palmer), uma jovem linda, a oportunidade de se apaixonar e viver um verdadeiro amor de verão.

O filme possui poucas imagens rodadas em estúdio e Rod Hardy aproveita para executar com sua câmera travellings, movimento que permite apresentar as lindas paisagens australianas: uma atitude bastante utilizada, mas que pode ser justificada, já que locações como as que eles escolheu são raras de se ver em cinema. Durante muitas tomadas ele passeia com a sua câmera sobre o mar que banha a cidade e se debruça sobre grandes rochedos. Planos memoráveis feitos a partir de travellings, aliás, foram utilizados por Orson Welles em seu clássico “Cidadão Kane”, principalmente em cenas internas, quando utiliza o recurso para apresentar a cena em maior espaço.

Há quem possa achar a história de “Um Verão para Toda Vida” piegas ou saudosista, principalmente nos momentos finais, quando uma expectativa é desfeita. Entretanto, o longa-metragem é capaz de emocionar, de fazer o espectador refletir e também se divertir com a composição de imagens maravilhosas, uma história sensível acompanhada por uma trilha sonora bem colocada.

Sem Controle

Há muitas adaptações de livros para o cinema, assim como a vida real. No longa-metragem “Sem Controle” a ficção se transforma em realidade não apenas como fruto da imaginação para a adaptação do filme, mas também dentro da produção. Imagine um diretor tentando ensinar a linguagem teatral a pacientes em tratamento psiquiátricos. É exatamente isso o que faz o personagem vivido por Eduardo Moscovis na fita dirigida pela estreante Cris D’Amato (que só havia participado de outros longas como assistente de direção).

Ele é Danilo Porto, diretor de teatro obcecado com a injustiça cometida contra o fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, caso que iniciou o processo de extinção da pena de morte no Brasil. Convidado pela ex-namorada, Márcia (Vanessa Gerbelli), dona da clínica, Danilo, que teve uma crise de estresse, passa uma temporada internado e, quando recebe alta, retorna apenas para lecionar uma oficina aos internos, incluindo Aline (Milena Toscano), uma moça bela, sensual e aparentemente normal, que logo cai nos braços do professor.

A partir de então, com o decorrer dos ensaios da peça, a turma começa a mostrar a cara, e as fragilidades de cada esquizofrênico vai aparecendo à medida que a peça vai se desenvolvendo e o filme vai mudando de rumo (e decrescendo em qualidade).


O cenário do filme é sempre o hospital psiquiátrico, rodeado por um jardim. Do meio para o final, porém, quando a imaginação vai tomando conta da realidade, ou seja, quando os enfermos vão adotando a personalidade de seus personagens da peça, a fotografia muda um pouco, assim como muda o cenário, que passa a ser uma fazenda. A câmera nervosa sai do tripé e vai para a mão e o espectador é convidado a viver o drama do professor em apuros.


O produtor Júlio Uchoa pesquisou sobre a história de Motta Coqueiro e descobriu que ele foi condenado à morte injustamente. Um dos desafios do longa, porém, foi contar nos dias de hoje uma história transcorrida em meados do século 19.

Embora o espectador possa se prender para saber o que acontecerá ao final da trama e qual será o destino do personagem, é nítida que a mudança de rumo passa a ser uma esquizofrenia não apenas na tela, mas também dos produtores, que propõem ao público um filme fraco, que perde no ritmo e decai em qualidade cinematográfica. Em “Sem Controle”, não apenas os personagens perderam a mão.