quinta-feira, 28 de junho de 2007

A Grande Ilusão

Remake do filme de 1949 e baseado no clássico vencedor do Pulitzer de Robert Penn Warren, o longa, que não passou pelos cinemas brasileiros, tem direção de Steven Zaillian e conta a história de Willie Stark (Sean Penn), um político humilde que se torna candidato a governador para lutar contra os corruptos.

Em suas campanhas, ele enfoca a importância de ter um homem "caipira" no poder. Sempre acompanhado pelo jornalista Jack Burden (Jude Law), Stark começa a agir tão mal quanto os políticos que ele repugnava: larga a esposa, vai a cabarés, trai o povo.

Ambientado nos anos 1950, outra história é contada paralelamente: o amor de Jack peor Anne Stanton (Kate Winslet). Com interpretação sempre convincente de Sean Penn, a fita também tem participação de Anthony Hopkins como o juiz Irwin.

DVD - O Ano do Coelho

Baseado em romance homônimo, o filme conta a história do fotógrafo Tom Vatanen (Christopher Lambert), que deixa a sua profissão para viver aventura pela natureza do hemisfério norte. Sua vida agitada muda completamente quando vai receber um prêmio e precisa sair correndo para fotografar cenas de adolescentes que morreram por overdose. Sem coragem de fazer as imagens, sua vida começa a mudar quando seu companheiro quase atropela um coelho. Daí para frente, a visão de poesia floresce. Com locações no lado francês do Canadá, o filme apresenta imagens muito bonitas, mas a história sem surpresas deixa um pouco a desejar.

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado

Na onda de filmar histórias em quadrinhos e fazer continuações sem fim, nesta sexta, 29, chega aos cinemas brasileiros o longa-metragem "Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado" ("Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer").

Na primeira parte da franquia, que estreou em 2005, o diretor Tim Story se preocupou em apresentar os personagens e como os cientistas Reed (Ioan Gruffudd), Sue Storm (a bela Jessica Alba), Johnny Storm (Chris Evans) e Ben (Michael Chiklis) viraram Senhor Fantástico, Mulher Invisível, Tocha Humana e O Coisa. No final, Fantástico pede a mão da Mulher Invisível em casamento, justamente para contrariar a fama que ele tem de viver apenas para o trabalho.

É a partir daí, então, que começa a continuação do filme, quando os super-heróis estão mais à vontade no papel que estão exercendo perante a sociedade e já não se preocupam em esconder sua dupla personalidade. Porém, a turma agora terá de enfrentar o Surfista Prateado, que chega à Terra a mando de Galactus, o destruidor de mundos, com o intuito de preparar o planeta para a destruição e, portanto, começa a causar o caos. O surfista usa uma prancha como as de surfe, que tem poder cósmico de absorver e manipular as energias dos ambientes do universo. O personagem, totalmente digital, teve os movimentos capturados do ator Doug Jones. Mas quem lhe dá a voz é Laurence Fishburne (de "Matrix"). Além de ter de desvendar o enigma do Surfista, os heróis terão de encarar novamente o Dr. Destino (Julian McMahon), que está ainda mais poderoso.

Nesta continuação, o Quarteto Fantástico não fica apenas em um local, já que viaja para o Japão, para a África e outros locais, a fim de deter o mal. Uma das novidades é que eles trocam de personalidade e de poderes (um dos momentos mais divertidos e cruciais do filme). Diversão, aliás, está implícita na fita, pois os espectadores vão dar risadas em algumas passagens, como quando Stan Lee (o próprio e criador dos personagens) é barrado na porta ao tentar entrar no casamento de Sue e Reed.

Os personagens, como nos quadrinhos, são mais voltados para a família, e o longa retrata exatamente isso, quando se preocupa em focar o casamento de Sue e Reed, o romance de Ben e a nova namorada de Johnny. Ele, aliás, é o mais empolgado da turma, que se envolve com os seus poderes, brinca de voar ao lado do avião e quer dirigir o carro projetado por Reed. Na fita, os espectadores também poderão observar o lado humanizado do Surfista Prateado, que embora tenha de servir ao seu senhor, mostra compaixão.

O filme não se prende em apresentações, como na primeira parte. Contudo, a história demora um pouco a se desenvolver, de modo que a ação só surge do meio para o final do filme, que tem apenas 92 minutos. Os efeitos especiais aplicados são o melhor da história, que contribui para o trabalho de Tim Story. O diretor posiciona suas câmeras corretamente, mostra os poderes de cada personagem, mas sem exagerar, e conta uma história eficiente, embora demore um pouco a engrenar. O final, que tem aquele ar de "e viveram felizes para sempre", também mostra que pode-se esperar mais uma continuação.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Treze Homens e um Novo Segredo

Sem dúvida este é o ano do 3: "Homem-Aranha 3", "Piratas do Caribe 3", "Shrek Terceiro" e, com estréia nesta sexta-feira, 22 de junho, "Treze Homens e um Novo Segredo" ("Ocean's Thirteen"). Mais um exemplo: "O Ultimato Bourne", com lançamento apontado para 17 de agosto, é o terceiro filme da série após "Identidade Bourne" e "Supremacia Bourne".

Lançado em 2001, "Onze Homens e um Segredo" mostrou como se rouba o cofre de três cassinos em Las Vegas. Em 2004, foi a vez de "Doze Homens e Outro Segredo" provar que os americanos podem praticar roubos melhor que os franceses e, portanto, eles seguem para a Europa em busca de uma obra de arte. O filme mostrou também que o chinês tirado do Cirque du Soleil (e integrante da trupe) não aprendeu a falar inglês, que os dois irmãos do grupo continuam discutindo irritantemente, que Linus (Matt Damon) sabe liderar o time e que Ocean (George Clooney) e Rusty (Brad Pitt) continuam irresistíveis.

Pois bem, nesta terceira parte da franquia, o que vai motivar a equipe de Danny Ocean é a vingança contra The Bank, de propriedade de Willy Bank (o brilhante Al Pacino). Tudo isso porque o mau-caráter sacaneou Reuben Tishoff (Elliot Gould), o mentor da gangue. Mas sacaneou de tal forma, que o engraçado Reuben sobre um enfarte e está internado. A ação dos vingadores acontece na noite que deveria ser a inauguração de seu novo cassino. Para financiar o golpe, eles contam com a ajuda de, quem diria?, Terry Benedict (Andy Garcia).

O diretor Steven Soderbergh, que teve a idéia de fazer o terceiro filme enquanto estava finalizando o segundo, aponta novamente as suas lentes para Las Vegas, local onde foi filmado o primeiro longa. E talvez por retornar ao local onde ele já havia filmado antes, as imagens são um pouco repetitivas, como as tomadas sempre iguais do plano geral, quando mostra a cidade.

Com exceção disso, porém, ele conduz excepcionalmente bem a trama, e os atores estão bem à vontade, já que é a terceira vez que a equipe inteira trabalha junta. Julia Roberts, que participou nos dois primeiros como Tess, a esposa de Ocean, não está nesta continuação. Assim como não está Catherine Zeta-Jones, como Isabel Lahiri, personagem que começou um romance com Rusty, em "Doze Homens". A explicação da ausência de ambas, porém, é dada nos primeiros minutos do filme.

Nesta continuação, a franquia prossegue apostando nas estrelas principais, mas não poupou em chamar Al Pacino para completar o elenco. Também participa do enredo Ellen Barkin, como a mão direita de Bank.Embora seja um excesso apostar em uma continuação após "Doze Homens" (o pior dos três), é possível que a fita agrade ao espectador, principalmente porque além do plano mirabolante para se vingar, a trupe consegue tirar boas risadas do público com suas piadas sutis. Afinal de contas, ladrões com este calibre não têm punição: é só alegria!

O Despertar de Uma Paixão

Na Inglaterra dos anos 1920, quando tudo era rígido e cheio de protocolos, uma mulher solteira não era vista com bons olhos nem perante a própria família. E foi justamente para sair de casa e fugir do foco dos fofoqueiros que Kitty, uma mulher da alta classe, aceitou casar-se, às pressas, com Walter, um médico e bacteriologista de poucas palavras, que já estava de viagem marcada para Xangai, na China.Basicamente é este o começo da história contada no longa-metragem "O Despertar de uma Paixão" ("The Painted Veil"), baseado no romance homônimo escrito por Somerset Maugham, que estréia dia 22.

A fita começa mostrando uma viagem do casal, vivido por Naomi Watts ("King Kong" e "21 Gramas") e Edward Norton ("O Ilusionista" e "O Clube da Luta"), pelo interior da China. Mas é com cenas em flash back que o diretor John Curran explica como eles foram parar ali, em 1925. Chegando lá, os dois vivem o começo de casamento, até que Kitty se apaixona por Charles Townsend (Liev Schreiber), um homem casado, mas que está sempre cercado de casos extraconjugais.

Desconfiado do romance da esposa, Walter aceita o trabalho como voluntário em uma vila distante dali, pois os moradores daquele local estão sendo infectados por cólera. Walter se prontifica a ajudá-los a erradicar a epidemia, no entanto, não é fácil lidar com tantas diferenças culturais e com um povo supersticioso.

Daí para frente o longa se torna previsível, com o casal tentando lidar com as diferenças, já que cada um procura a qualidade que não existe no outro. Uma das belezas da fita são as diferenças culturais existentes entre o Ocidente e o Oriente, mas elas são bem retratadas, principalmente na direção de arte e na fotografia. A trilha sonora, vencedora do Globo de Ouro, em 2006, é outro ponto alto. Norton, que também produziu o filme ao lado de Naomi, consegue representar muito bem o médico sério e sisudo, mas que ao mesmo tempo é benevolente e apaixonado por sua esposa. A química com Naomi, aliás, funciona bem, e ela retrata a mulher à frente do seu tempo, que não se preocupa com rótulos e protocolos, mas que também não gosta de se sentir inútil e faz o bem à comunidade.

Com roteiro escrito por Ron Nyswaner ("Filadélfia"), o longa-metragem se mostra interessante e na medida certa, pois não explora os momentos tristes e nem força o espectador a se lamentar. Outra contribuição excelente é a presença de Toby Jones (atualmente em cartaz no filme "Confidencial") no elenco.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Shrek Terceiro

Mais uma trilogia será finalizada nesta sexta-feira, dia 15 de junho, quando os cinemas brasileiros receberem o longa-metragem de animação "Shrek Terceiro" ("Shrek The Third"). Porém, antes mesmo de ser lançado por aqui, Jeffrey Katzenberg, co-fundador da DreamWorks, anunciou que após o "Shrek 4", previsto para ser lançado em 2010, haverá ainda o "Shrek 5", que pretende contar sobre o passado do ogro e como ele chegou ao pântano. Outra sequüência já anunciada é o especial de Natal "Shrek The Halls", que será lançado em dezembro. As duas primeiras partes foram lançadas em 2001 e 2004, respectivamente. Desta vez, quem dirige o longa é Chris Miller, que havia trabalhado nos outros dois como dublador e no departamento de animação do longa-metragem "Madagascar".

Nesta continuação, já que Shrek (novamente com voz de Mike Myers, na versão original) e a princesa Fiona (Cameron Diaz) se casaram, os dois voltam ao reino Tão Tão Distante para substituir o trono do rei, pois o pai de Fiona está em seu leito de morte.

Como ser rei nem passa pela cabeça de Shrek, ele segue, com a ajuda de Burro (Eddie Murphy) e do Gato de Botas (Antonio Banderas), para encontrar o único herdeiro: Arthur (Justin Timberlake), um primo de Fiona desaparecido há muito tempo. Antes que ele chegue a Arthur, porém, Shrek terá de deter o Príncipe Encantado (Rupert Everett com sotaque britânico muito bom).

Fiona, que está grávida, terá ajuda de sua mãe e das princesas Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel e Bela Adormecida para parar o Príncipe Encantado.Continuações são sempre vistas com desconfiança, pois há uma exploração, muitas vezes desnecessária, de fórmulas que um dia deram certo. No caso desta animação, há ainda história para contar, visto que o roteiro é bem escrito e conciso. No entanto, o que incomoda é o uso desnecessário de personagens da Disney por uma produtora concorrente, como é a DreamWorks. Vá lá, que eles sempre apareceram nos filmes de Shrek, mas o uso excessivo é desnecessário (e perde pontos).

Aqui, as princesas interpretam os seus papéis como mulheres bem-sucedidas, autosuficientes, enquanto o Príncipe Encantado é o vilão do filme. O mocinho, por sua vez, é o ogro feio, grandalhão e mal-educado.

Os destaques continuam para Burro e para o Gato de Botas, que participam de cenas hilárias e contribuem para o ritmo da fita. A família do Burro, aliás, cresceu e os espectadores vão se divertir mais com essas "criaturinhas".

Outra coisa que também conta ponto na fita é o avanço tecnológico, que contribui para o ritmo da fita. Não existe, por assim dizer, a surpresa, como tinha o primeiro filme, mas ainda assim vale a pena ver.Embora não seja melhor que os dois primeiros filmes, "Shrek Terceiro" garante diversão às crianças e aos crescidinhos, uma vez que durante toda a fita há referências históricas (como a cena em que as princesas queimam o sutiã como forma de protesto) que os pequenos com certeza não entenderão. Parece até que a animação mudou o seu foco, pois os adultos, esses sim, vão se divertir um bocado.

Cão Sem Dono

Há uma analogia explícita em “Cão Sem Dono”, novo longa-metragem de Beto Brant e Renato Ciasca. Baseado no livro “Até o Dia em que o Cão Morreu”, de Daniel Galera, o filme tem estréia marcada para esta sexta-feira, dia 15 de junho. O cão, neste caso, é um vira-lata, Churras, que o personagem principal encontra na rua. O outro cão sem dono (por assim dizer) é o próprio personagem, Ciro (Júlio Andrade), um recém-formado em literatura que vive as angústias de não ter planos para a vida, mas ao mesmo tempo não quer se entregar ao amor da sensual Marcela (Tainá Muller).

Enquanto ele deixa a barba por fazer, se embriaga com álcool e se entorpece com drogas, ela segue o seu caminho, mas não abre mão do seu sonho de viajar e de concretizar o sonho de ser modelo.

Com tatuagens espalhadas pelo corpo e sem rumo, Ciro vive sozinho em um apartamento bem simples, cujo quarto tem apenas um colchão no chão. A companhia para as noites de solidão, porém, não lhe falta. No entanto, ele tem um tom descompromissado, não faz questão de trocar telefone com a moça com quem passou a noite.

No prédio onde mora, o porteiro que toma conta da segurança, toma conta também de Ciro, que vez ou outra aparece cambaleando de bêbado. O porteiro, aliás, é um artista, que pinta figuras abstratas em folhas de jornal.

Embora seja formado em literatura, Ciro não consegue arrumar emprego como tradutor de russo. Até que lhe oferecem uma vaga para fazer a revisão de um livro, mas por conta do pequeno salário ele acaba recusando. Uma forma de mostrar que não está aí para nada.
A câmera de Beto Brant mostra cenas escuras e retrata o cotidiano dos personagens, como o café-da-manhã, o passeio com o cachorro, cenas de sexo calientes, encontro com os amigos, declarações de amor.

Com muitas cenas em close, Beto extrai dos seus personagens interpretações ímpares que não precisam nem de diálogos, embora eles sejam sempre bem-construídos. Trata-se de um filme denso e a trilha sonora não é contínua e entediante, de modo que não a música, mas o som do filme é bem explorado. E a maneira que Beto usa o jogo de luzes para mostrar o claro e o escuro, assim como as sombras, é brilhante. Sem dúvida, um bom motivo para o cinema nacional se destacar e mostrar que realmente é possível fazer cinema. Basta criatividade e, claro, competência para executá-la.

DVD - Mais Estranho que a Ficcção

É arriscado afirmar isso antes de terminar a primeira metade do ano, mas o longa-metragem, que estreou nos cinemas em janeiro, é um dos melhores de 2007. Dirigida por Marc Forster, a fita conta a história de Harold Crick (Will Farrel), um fiscal da Receita Federal que tem os seus passos contados e sua vida cronometrada por uma narradora, Karen “Kay” Eiffel (Emma Thompson), que tenta viver as angústias de seu personagem no livro para dar um final. O longa tem ainda a participação brilhante de Dustin Hoffman como o professor de literatura. Com final surpreendente, é de se esperar que a narrativa seja estranhíssima e muito bem-feita.

DVD - A Volta dos Bravos

Com foco na guerra do Iraque, o filme mostra, do ponto de vista norte-americano, a vida dos soldados que deixam as suas casas para lutar pela nação, mesmo que muitos não concordem com o presidente que um punhado escolheu para governar o país. As primeiras imagens mostram o calor e a poeira onde viviam esses soldados, principalmente o médico Will Marsh (o ótimo Samuel L. Jackson). Com a notícia de que voltará para casa, Will e os outros soldados começam a fazer planos sobre o que farão assim que chegarem em terras conhecidas. A última missão, antes de fazer as malas, é levar ajuda para o interior.

O longa conta as dificuldades de readaptação e como os soldados vivem com os fantasmas da guerra, a falta de uma das mãos, como Vanessa Price (Jessica Biel). O roteiro é bem resolvido ao final, quando as histórias de cada personagem são concluídas. Como narrativa de uma guerra, o longa deixa a desejar, mas a fita de Irwin Winkler humaniza os soldados e joga luzes sobre o propósito desta guerra contra o Iraque que perdura há muito tempo.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Não Por Acaso

Entre várias opções, Michaelis define "Acaso" como "acontecimento incerto ou imprevisível; eventualidade". E é justamente sobre este tema que trata o longa-metragem "Não por Acaso", que estreou quinta-feira, 7. O diretor carioca Philippe Barcinski (do curta-metragem "Janela Aberta") se propõe a contar duas histórias paralelas, e uma delas começa com os créditos, quando as imagens apresentam a movimentada São Paulo vista do alto. De um helicóptero, personagens discutem o trânsito da grande metrópole, com o emaranhado de viadutos que cortam a cidade. Então, Barcinski apresenta o funcionário do departamento de trânsito da cidade, que controla os semáforos das ruas e avenidas, a fim de fazer o trânsito fluir.

Com câmeras de vídeo à disposição, Ênio (Leonardo Medeiros) analisa o andamento dos carros e acredita que tudo pode ser controlado, inclusive as suas emoções. "A cidade não é apenas um cano, é um emaranhado de canos correndo para diferentes direções", diz ele em uma passagem do longa.

Do outro lado está Pedro (Rodrigo Santoro, que aparece após 20 minutos), um obcecado por sinuca que também fabrica as mesas do jogo, tal como o seu pai fazia. Com cabelo de lado e jeito malandro (o sambinha no fundo dá o toque final), Pedro ensaia as suas jogadas, que são programadas para vencer o adversário, em uma clássica relação de causa e efeito. Com narrações em off, ele prepara as suas tacadas e imagina o trajeto que a bola vai fazer quando ele a empurrar com o taco.

As vidas dos dois personagens centrais nunca vão se cruzar no longa-metragem escrito por Barcinski em parceria com sua esposa, Fabiana Werneck Barcinski, e por Eugenio Puppo, mas um acidente de automóvel envolvendo a ex-mulher de Ênio e a atual namorada de Pedro, Teresa (a estreante Branca Messina), dá um novo rumo à história e mostra como seus sentimentos são parecidos. A partir de então, entram em cena a adolescente Bia (Rita Batata), filha de Ênio, e Lúcia (Letícia Sabatella), uma executiva que acaba de alugar o apartamento de Teresa, que vão mostrar nitidamente o tormento dos personagens e as dificuldades de se relacionar com pessoas, já que não é possível obter o controle de tudo e de todos, tal como é possível em um jogo de sinuca sem parceiro, ou num ritmo do trânsito de uma grande metrópole, sem acidente.

Barcinski consegue contar uma emocionante história apoiado em uma direção bem-feita, em especial em virtude da movimentação de suas câmeras na cinzenta São Paulo, com cenas do Centro da cidade. As locações, aliás, servem como coadjuvante para o filme, que fala de pessoas e da dificuldade nas relações interpessoais, já que emoções são incontroláveis. A fotografia de Pedro Farkas ("Zuzu Angel") também colabora com o ar triste. Rodrigo Santoro mostra que pode atuar e sabe fazer um rapaz de sua idade, embora tenha ficado devendo em suas últimas participações no cinema hollywoodiano. Letícia Sabatella, porém, força um pouco sua interpretação e não dá o tratamento especial que a sua personagem merece.

Ed Cortes, autor da trilha sonora ("Cidade de Deus"), dá o toque final à melancolia à qual o filme se propõe, quando discute a solidão e a ansiedade de programar os encontros e fazer como tudo já foi feito antes, e só não deu certo por dois segundos, tempo suficiente para mudar o rumo de uma vida, de toda uma história. Sem dúvida, obra do acaso.

Totalmente Apaixonados

No intervalo de grandes lançamentos do cinema, que teve "Homem-Aranha 3" e "Piratas do Caribe - No Fim do Mundo", em seqüência, e antes da animação "Shrek Terceiro" (com estréia em 15 de junho), que devem ocupar uma enorme parte das salas de cinema, o feriado de Corpus Christi reservou espaço para filmes menores, mas não menos importantes.

"Totalmente Apaixonados" ("Trust the Man"), ao contrário do que o nome sugere, não tem nada de piegas. Trata-se de uma comédia romântica, mas com elementos trágicos que envolvem os casais de todas as épocas, que vai fazer boa parte da platéia refletir sobre os seus verdadeiros anseios.

O mote principal da fita escrita e dirigida por Bart Freundlich é mostrar as angústias de casais e as diferentes reações do homem e da mulher em uma mesma situação. Sua inspiração, aliás, foi na comédia de Woody Allen "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", de 1977, e os desencontros de sentimentos e desejos que permeiam os casais.O cenário é Nova York. Lá, vive Rebecca (Julianne Moore) e seu marido Tom (David Duchovny). Ela, uma atriz de sucesso no cinema, que resolve fazer uma peça no teatro, e ele, um publicitário, mas que abandonou seu trabalho para cuidar das crianças em casa.

O outro casal é formado pelo irmão mais novo de Rebecca, Tobey (Billy Crudup) e por Elaine (Maggie Gyllenhaal). Ele, um trintão que não faz nada na vida, a não ser mudar o carro de estacionamento e falar da morte (!); ela, uma escritora de livros infantis em início de carreira. Os dois namoram há oito anos e, como era de se esperar, ela quer se casar e ter filhos e ele nem pensa nesta possibilidade (ao menos por enquanto). Além do drama vivido por Elaine, Tom também vive o seu: se diz viciado em sexo. E todas as vezes que procura sua esposa para transar, recebe cartão-vermelho. Era de se esperar, pois, se não há diálogo, que ele vá procurar saciedade em outros braços. Esta é a parte previsível do filme. A outra parte, nada previsível, são as seqüências de cenas hilárias que animam e envolvem o espectador.

Freundlich acompanha com sua câmera os personagens pelas ruas da cidade, dentro de suas casas, e leva o espectador a conhecer a intimidade de todos. O filme não é pretensioso, e talvez esta seja uma das suas maiores virtudes. Ele apenas mostra o que quer: contar uma história cômica, com personagens bem-construídos, que faz muita gente na platéia se identificar.

Depois do Casamento

Idealista. Esta é uma das características do personagem do longa-metragem dinamarquês "Depois do Casamento" ("Efter Brylluppet"), indicado ao Oscar 2007 como Melhor Filme Estrangeiro, que tem pré-estréia dia 9, no Frei Caneca e no Reserva Cultural.

Dirigido por Susanne Bier, o filme conta a história de Jacob (Mads Mikkelsen, o vilão de "Cassino Royale"), um rapaz que deixou o seu país para ajudar crianças em um orfanato na Índia. Sem ter dinheiro para fazer com que o local não feche, pois precisa de alimentos e remédios, ele recebe proposta irrecusável: o empresário dinamarquês Jørgen (Rolf Lassgård) quer doar US$ 4 milhões.No entanto, como nem tudo na vida vem fácil, ele faz algumas exigências, que incluem a mudança definitiva de Jacob para a Dinamarca. Mas quando chega ao país, ele vai a uma reunião com o empresário, que diz que a decisão da doação só será definida após o casamento da filha.

Assim, o rapaz é convidado para comparecer à cerimônia. A partir daí, muitas revelações serão feitas a seu respeito, principalmente de seu passado.A câmera de Susanne faz voltas e mostra planos e contraplanos de forma intimista. A causa pela qual ela se envolve (fome na Índia) sem dúvida deveria ser um motivo para as pessoas também se incomodarem. Com a preocupação na mão, ela é autora do argumento que deu origem ao roteiro de Anders Thomas Jensen. Assim, ela mostra, com suas lentes, uma narrativa bem-estruturada, na medida em que consegue contar uma história emocionante e envolver o espectador no drama como pouco o cinema tem mostrado ultimamente.